Tempestade de ideias

Lia Ernst Hans Gombrich. Encantado com Leonardo da Vinci, ao anoitecer de uma tarde amazônica. Absorto. Os olhos em “Estudos anatômicos”, laringe e perna, de 1510. Quanta perfeição! Pura arte e anatomia nunca vistas. A última ceia. Mona Lisa. Os olhos deslizam das páginas. À esquerda. Clarões, nuvens, luzes. Sinalizadores do pássaro de aço que da Vinci idealizara. Os olhos voltam-se para as páginas. Mona Lisa. Uma força me impele a erguer os olhos. Duas mãos estendidas por sobre a poltrona 10A chegam a me assustar. O sinal da presença humana tirou-me dos momentos de transe total nos quais vivia cada detalhe de Gombrich sobre da Vinci. A respiração oscilou o ritmo. Um rosto de menina surge entre aquelas mãos, na altura dos cotovelos, lança-me um sorriso terno, infantil e diz; “Tio, porque o senhor deixa aquilo aberto?” e dirige o braço direito para a janela da poltrona 11A na qual eu estava sentado. “É para olhar a nuvens e curtir essa sensação de liberdade”. Sorri. Ela sorriu. “Tomei um susto com as suas mãos”. Ela abriu ainda mais o sorriso. CONTINUA!

sábado, 25 de fevereiro de 2017

Decepção

Tem gosto de fel
Bem longe do mel
Um gosto sem gosto
Exposto no rosto.
No olhar, nos gestos
Nas palavras ditas
E até nas mal ditas.
Bem dita a hora
Que de ti me aproximei
Maldita a hora
Que te amei.
Depois do amor vem a dor
Disto eu já sabia.
O que eu pouco sabia
Era o quanto doía.
Dor de decepção
Endurece o coração
Mas com tempo e calma
É capaz de libertar a alma.


sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

De fato

Às vezes, faz bem receber
Um choque de realidade
Para que se possa entender
Que os fatos parecem verdade.
De fato, amor pleno não existe
O que ainda, por certo, persiste
É uma realidade muito cruel
Com pleno gosto de fel.
O fel dos fatos e da exigência
Da sociedade e da conveniência
Que se nos apresentam mais fortes
Que as juras de um amor até a morte.
Trocamos, fizemos e juramos
Quem sabe não nos enganamos
E prometemos até nos atos
O que não podemos cumprir de fato.


quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

Perigo

É tanto amor que tenho
Que, às vezes, me detenho
Para não me ver a explodir
De tanto desejo por ti.
Ao te ver caminhar
Vem o desejo de e amar
Ali mesmo ao pé da mesa
Com toda a delicadeza.
Ou ainda com intensa fúria
Para demonstrar a loucura
Vontade incontida de ti
Mas, não estás aqui.
Resta-me te ver passar
E ficar aqui a desejar
Momentos a sós contigo
Ainda que haja perigo.