Tempestade de ideias

Lia Ernst Hans Gombrich. Encantado com Leonardo da Vinci, ao anoitecer de uma tarde amazônica. Absorto. Os olhos em “Estudos anatômicos”, laringe e perna, de 1510. Quanta perfeição! Pura arte e anatomia nunca vistas. A última ceia. Mona Lisa. Os olhos deslizam das páginas. À esquerda. Clarões, nuvens, luzes. Sinalizadores do pássaro de aço que da Vinci idealizara. Os olhos voltam-se para as páginas. Mona Lisa. Uma força me impele a erguer os olhos. Duas mãos estendidas por sobre a poltrona 10A chegam a me assustar. O sinal da presença humana tirou-me dos momentos de transe total nos quais vivia cada detalhe de Gombrich sobre da Vinci. A respiração oscilou o ritmo. Um rosto de menina surge entre aquelas mãos, na altura dos cotovelos, lança-me um sorriso terno, infantil e diz; “Tio, porque o senhor deixa aquilo aberto?” e dirige o braço direito para a janela da poltrona 11A na qual eu estava sentado. “É para olhar a nuvens e curtir essa sensação de liberdade”. Sorri. Ela sorriu. “Tomei um susto com as suas mãos”. Ela abriu ainda mais o sorriso. CONTINUA!

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Vontade


Minha vontade agora
É tê-la nos braços por horas
Para ficarmos agarradinhos
Em plena troca de carinhos.
Sentir o teu coração
A pulsar inquieto
Pois nele estou inteiro
Até no teu travesseiro.
Estar embaixo dos lençóis
Sem uma peça, nu em pelo
Tocar tuas curvas, sentir teu cheiro
Amar-te com o melhor que temos de nós.

domingo, 2 de setembro de 2012

Pontos


Olho para uma ponta:
És negra.
Olho para a outra:
Marrom.
Nem negra, nem marrom: barrenta.
Encontram-se Negro e Solimões.
Já não estamos na mesma Ponta
Passamos pela Ponte
Chegamos a outro ponto
Onde os dois rios não se misturam
Mas os cabocos marcam encontros.

sábado, 1 de setembro de 2012

Lixo


A política da política baré é lixo
A de Brasília é um lixão.
Ser crápula é necessidade básica
A cretinice é pré-requisito.
Putas e pilantras são alçados
À condição de celebridades
Passam a ser vistos como capazes
De “salvar” uma cidade.
O mito de que o lixo é pobre
Esconde a sujeira de caráter
De quem se finge de nobre.
Roubo e malandragem, porém, não param
São parte da vida dessa “nobreza
Que usa o dinheiro público
Pra realçar a falsa beleza.
Do lixo vieste a ele voltarás
Com dinheiro roubado na conta-corrente
Ser canastrão é tua opção de vida
Mas não consegues enganar toda a gente.

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Frestas


Vejo a vida passar pela vidraça
Por entre as frestas da veneziana
Não és Ana nem Veneza:
Uma selva de lixo e pedra.
A podridão dos igarapés
A má-educação dos motoristas
Corpos dilacerados em acidentes
Vidas ceifadas em meio às pistas.
Ou nos semáforos e calçadas
Vítimas de bêbados e imprudentes
Que conduzem os automóveis
E não enxergam os indigentes.
Vida que segue para os vivos
E que se foi para os mortos
Uma marca do nada no infinito
Luz que vence a vedação da porta.
Mas que não rompe o breu do fumê
Nem me traz o desenho da tua sobra
Miserável e suja cidade que te esconde
Só a tua lembrança me acode.

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Famintos


Eles te olham nos olhos
Elas também de ferem com o olhar
São parte da rua, para muitos lixo
Humanos, pedintes, sem lar.
Moram nas pontes, nos viadutos
Embaixo do nada, do lugar nenhum
São famintos de amor e afeto
E não os encontram em lugar algum.
Eu passo, tu passas, nos passamos
E fingimos que nem os notamos
É essa frieza que mais acirra a fome
De serem notados como humanos.
Nos os fazemos bichos famintos
Não os tratamos como gente
São nossos irmãos de raça e terra
Para nós, porém, são meros indigentes.

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Ensolarados


Os dias nascem, crescem e morrem
Como os seres
Humanos ou não
A cada ano
A cada hora
A cada dia.
Ensolarados
Iluminados
Cada um do seu lado
Dia a dia: a cada dia.
Mas se forem chuvosos?
Também são nossos dias.

terça-feira, 28 de agosto de 2012