Tempestade de ideias

Lia Ernst Hans Gombrich. Encantado com Leonardo da Vinci, ao anoitecer de uma tarde amazônica. Absorto. Os olhos em “Estudos anatômicos”, laringe e perna, de 1510. Quanta perfeição! Pura arte e anatomia nunca vistas. A última ceia. Mona Lisa. Os olhos deslizam das páginas. À esquerda. Clarões, nuvens, luzes. Sinalizadores do pássaro de aço que da Vinci idealizara. Os olhos voltam-se para as páginas. Mona Lisa. Uma força me impele a erguer os olhos. Duas mãos estendidas por sobre a poltrona 10A chegam a me assustar. O sinal da presença humana tirou-me dos momentos de transe total nos quais vivia cada detalhe de Gombrich sobre da Vinci. A respiração oscilou o ritmo. Um rosto de menina surge entre aquelas mãos, na altura dos cotovelos, lança-me um sorriso terno, infantil e diz; “Tio, porque o senhor deixa aquilo aberto?” e dirige o braço direito para a janela da poltrona 11A na qual eu estava sentado. “É para olhar a nuvens e curtir essa sensação de liberdade”. Sorri. Ela sorriu. “Tomei um susto com as suas mãos”. Ela abriu ainda mais o sorriso. CONTINUA!

quarta-feira, 7 de março de 2012

Re Seios


Meu medo é perder tudo
E deixar de ser teu todo.
Não poder tocar mais teu corpo
Estar em teu peito, morto.
Re vejo tuas fotos
Re corto teus contornos
Re bato meus desejos
Re busco os teus beijos.
Se não te tenho nos braços
Re faço os meus sonhos
Re tiro teus suspiros
Re seio não tê-la
Por recear perdê-la.

terça-feira, 6 de março de 2012

Chiados


Ouço um barulho constante
Como se uma cachoeira
Jorrasse água constante
Não é chuveiro ligado
Nem água corrente encanada
É cena constante ali
Como aqui e acolá
Gota, trovão e relâmpagos
Que chegam a assustar.
É como se o telhado
Ganhasse asas, a voar
E de chiado em chiado
Gotas comecem a bailar
Num trançado traçado
Você se deita ao meu lado
Começamos a sonhar.

segunda-feira, 5 de março de 2012

Pluralidades


Temos pluralidades
Que nos tornam singulares.
Por isso somos plurais
E plural é nossa relação
Tem terceira e quarta pessoa
Num lance de pura emoção.
Sabemos que amor e sexo
São pares desordenados,
Desconexos
O que nos torna plural
É encara tudo isso
Como fato natural.

domingo, 4 de março de 2012

Singularidades


Ser plural em um mundo careta
É tão singular quanto às heresias
De quem até nega ser esteta
E esconde suas poesias.
A idade de ser singular
Nunca aparece pra quem é plural
Porque ser plural é não ter idade
Entre e a vida e a morte tudo é natural.
Singular e plural, plural e singular
São da moeda a mesma face
Pois se da face escondo o que exprime o olhar
Não sou plural e nem singular.

sexta-feira, 2 de março de 2012

Suspeitas


Confiar é manter a firmeza dos olhos
É não deixar que as pálpebras neguem
O que dizem a direção do olhar.
Se esses elementos não se combinam
E as suspeitas se erguem
Você passa a ser visto como um verme.
Nada pior do que ter como herança
A eterna desconfiança
De quem um dia em ti acreditou.

Giros


Deixa que o mundo gire
E me traga de volta a ti
Ou que me leve embora
E eu não pise mais aqui.
Levo lembranças
Deixo saudades.
Ou não levo nada
Nem deixo coisa alguma
Nas idas e vindas da vida
Pouco importam as feridas!
Valem as marcas deixadas
Pelos momentos vividos
Pelos sentidos sentidos
Ao longo da nossa estrada.

quinta-feira, 1 de março de 2012

Salvador da pátria


Pra Salvador da pátria
É preciso vocação
Pois pátria nenhuma se salva
Sem que se cobre participação.
Democracia se faz comigo
Com você e todos nós
É preciso um grito na garganta
E que todos soltem a voz.
Se não assumes tua parte
No exercício da autonomia
Jamais poderás cobrar
Mobilização e cidadania.
Erra quem delega aos outros
O poder de mudar o mundo
Cria o teu a cada dia
Isso sim é democracia.