Tempestade de ideias

Lia Ernst Hans Gombrich. Encantado com Leonardo da Vinci, ao anoitecer de uma tarde amazônica. Absorto. Os olhos em “Estudos anatômicos”, laringe e perna, de 1510. Quanta perfeição! Pura arte e anatomia nunca vistas. A última ceia. Mona Lisa. Os olhos deslizam das páginas. À esquerda. Clarões, nuvens, luzes. Sinalizadores do pássaro de aço que da Vinci idealizara. Os olhos voltam-se para as páginas. Mona Lisa. Uma força me impele a erguer os olhos. Duas mãos estendidas por sobre a poltrona 10A chegam a me assustar. O sinal da presença humana tirou-me dos momentos de transe total nos quais vivia cada detalhe de Gombrich sobre da Vinci. A respiração oscilou o ritmo. Um rosto de menina surge entre aquelas mãos, na altura dos cotovelos, lança-me um sorriso terno, infantil e diz; “Tio, porque o senhor deixa aquilo aberto?” e dirige o braço direito para a janela da poltrona 11A na qual eu estava sentado. “É para olhar a nuvens e curtir essa sensação de liberdade”. Sorri. Ela sorriu. “Tomei um susto com as suas mãos”. Ela abriu ainda mais o sorriso. CONTINUA!

sábado, 7 de abril de 2012

Amor impuro


Se existe amor puro
É porque impuro também há
Mas se não coisas do coração
Quantos tipos de amores hão?
Pureza ou impureza
São formas de uma olhar objetivo
Ou são moedas de um mesmo ser
Sentidos de um só adjetivo.

sexta-feira, 6 de abril de 2012

Entrega


A sexta-feira é da paixão
Da entrega do filho
Do homem que se fez pai
Filho e espírito santo.
Para os católicos
Mas há quem proteste
Deteste
Essa coisa de imagem
Quanta bobagem!
Melhores dias virão
Piores homens também
No outro dia irão
Com suas mulheres ou não.

quinta-feira, 5 de abril de 2012

Tristeza


Tento entender essa dor lacerante
Que dominantemente inocente
Destroça a alma na tua ausência
Provoca demência, atroz inocência
Desfaço o sorriso, em gritos de dor.
Sem ti sentir é algo improvável
Contigo desligo-me do mundo real
Nem sei se é amor esse infame desejo
De me afogar em delírios e beijos
E deixar que essa dor
Qualquer dia transforme-se em amor.

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Obrigações


Ventos nos movem em direções
Nem sempre obrigatórias
Que transformamos em obrigações.
Sou coletivo ser-indivíduo
A abrir mão de viver emoções
Quando o que é de todos supera os sentidos
O branco da luz brilha em decisões
A reluzir entre cores e odores
Sabores de uma vida levada a dois
Para que de um todo renasçam um só
Poeta de todos os tipos de nós.

terça-feira, 3 de abril de 2012

Prazeres


Às vezes o que escrevo
Não me dá prazer, dói nos nervos:
Transformo em poema um cortejo
Quer seja até um enterro.
Não creio em vida após a morte
Por isso não quero caixão como suporte
Prefiro em vida ser amado
E ao morrer, ser cremado.
Quero minhas cinzas jogadas
Em um rio alagado
Ou jogadas das turbinas de um jato
Na mais alta das nuvens em velocidade
Para que de mim só fiquem as lembranças
Do que fiz de bom ou de todas as maldades.

segunda-feira, 2 de abril de 2012

Verdades


Mentiras são verdades
Que perderam a identidade
Verdades são mentiras
Que ganharam integridade.
Um dia verdades viram mentiras
No outro, mentiras são verdades
É nesse jogo de falsas identidades
Que as verdades nem sempre são mentiras
E as mentiras quase nunca são verdades.
Todas dependem, em verdade,
Do que vos digo e da fé que de ti tenho
Em assim não sendo, o que obtenho,
É pura e falsa verdade.

domingo, 1 de abril de 2012

Mentiras



Verdades que querem se firmar
Começam como mentiras a se espalhar
Nascem, ganham vida dia a dia
Como se fossem elegia
O mundo per o rumo, o verso a rima.
Uma mentira bem-contada
É capaz de transformar o real
Deixa você se sentir o tal
Alegre como ninguém viu
Falsa alegria como um falso dia
Do início do mês de abril.