Tempestade de ideias

Lia Ernst Hans Gombrich. Encantado com Leonardo da Vinci, ao anoitecer de uma tarde amazônica. Absorto. Os olhos em “Estudos anatômicos”, laringe e perna, de 1510. Quanta perfeição! Pura arte e anatomia nunca vistas. A última ceia. Mona Lisa. Os olhos deslizam das páginas. À esquerda. Clarões, nuvens, luzes. Sinalizadores do pássaro de aço que da Vinci idealizara. Os olhos voltam-se para as páginas. Mona Lisa. Uma força me impele a erguer os olhos. Duas mãos estendidas por sobre a poltrona 10A chegam a me assustar. O sinal da presença humana tirou-me dos momentos de transe total nos quais vivia cada detalhe de Gombrich sobre da Vinci. A respiração oscilou o ritmo. Um rosto de menina surge entre aquelas mãos, na altura dos cotovelos, lança-me um sorriso terno, infantil e diz; “Tio, porque o senhor deixa aquilo aberto?” e dirige o braço direito para a janela da poltrona 11A na qual eu estava sentado. “É para olhar a nuvens e curtir essa sensação de liberdade”. Sorri. Ela sorriu. “Tomei um susto com as suas mãos”. Ela abriu ainda mais o sorriso. CONTINUA!

sábado, 20 de outubro de 2012

Temporal


A chuva desce lá fora como se nada fosse
Só que é tudo o que o caboclo deseja
Quando a estiagem do leito transborda
E a água-mãe do solo não brota.
É temporal ou chuva fina
A água do solo não brota fina
A chuva em ebulição isola
Os brotos das plantas lá fora.
Telhados, paredes, as casas
Inteiras perdem a estrutura
Os ventos arrastam os sonhos
De uma tranquila vida noturna.

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Estiagem


Água não vejo nem das barragens
Meu rio, no cio, deixa-me em seca
Onde havia água hoje é barro batido
Lama não há na beira do meu rio.
Ele alimenta com água potável
Os lados direito e esquerdo da cidade
Na seca, porém, o rio vira córrego
E vira-se contra nós que o atacamos
Quando na cheia empilhamos
Todo o tipo de lixo no teu leito.

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Pedinte


Não tenha inveja da minha liberdade
Do fato de eu andar pela cidade
A te incomodar em cada esquina.
Com esse olhar pedinte de menina
Peço, imploro uma esmola
Ou um prato de comida.
Há um porco-imundo que me olha com desejo
Já tentou roubar-me até um beijo
E levar minha infância a reboque.
Não chegou me dar nenhum toque
Sequer uma carícia no rosto
Escarrei na cara dele com nojo.
A rua é minha casa, meu leito
Sou digna de muito respeito
Ninguém irá me prostituir.

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Canções


Professo um estilo de vida
Que não se encontra em cada esquina
Que não se confunde com bem-querer
Esconde nos gestos imenso prazer.
De passar pelo mundo como um vagabundo
Um ser que não se curva às convenções
Abomina regras, destrói os padrões
Vive mundo agora a fazer canções.
Não dá conselhos, nem distribui fórmulas
Faz da contrarreforma seu jeito de ser
Consome tapioca, pamonha ou canjica
E na humildade onde mais se fixa
Como marca sincera das suas emoções.
Vaga bar em bar a tomar um pileque
Descobre o prazer de ser doce moleque
A passar dos limites impostos pelo coletivo
E a gozar cada segundo de um ser afetivo.

terça-feira, 16 de outubro de 2012

Homo


Sou homo porque sou homem
E afetivo por ser mulher
Homem e mulher em um mesmo corpo
Mulher e homem em um só espírito.
Teu preconceito não admito
Sou um ser vivo igual a ti
Nascer macho ou fêmea não tem escolha
Homem ou mulher é questão de opção
A ti não interessa com quem durmo ou vivo
É meu direito ser homoafetivo.
Católico, evangélico, budista ou não
Não misturo sexo com religião
Cada um que tenha o Deus que quiser
E escolha pra vida: homem ou mulher.

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Sabedoria


Conhecimento e sabedoria
Não se repassam dia-a-dia
São acumulados ao longo da vida
Experimentados a cada segundo.
Por quem exercita a tolerância
E o respeito às diferenças
Quem investe nas experiências
E nos experimentos, sem medo.
Professor não ensina, professa
Não critica quem protesta
Faz-se sábio ao tolerar.
Se assim não for, não é professor
Vira um mero transmissor
De conceitos e conteúdos.
Uso a sociedade como escudo
Para esconder seus traumas
E o que lhe fere a alma.
Dizer sim à homofobia
Ou a qualquer tipo de preconceito
Ao invés de sabedoria, é defeito.
É marca de plena ignorância
Da deplorável intolerância
De quem usa a fé de todo o povo
Para pregar ódio que dá nojo.
Escarro, jogo o meu catarro
Sobre o lixo que são esses bichos
Que se utilizam da profissão
Para sujar até a religião.

domingo, 14 de outubro de 2012

Posse


Teu homem não é teu dono
Nem patrão, nem patrono.
Não tem a posse do teu corpo
Por ser marido ou namorado
Nem por dividir um teto
Ou por trocarem afeto.
A vida a dois não dá direito
E nem torna sem efeito
A liberdade de ir e vir.
Quando te declararem amor
E “só ou se você for”
Tenha cautela e desconfie.
Pois quem ama não toma posse
Nem se permite ser tomada
Ainda que a ela ofereçam
O título de namorada.