Tempestade de ideias

Lia Ernst Hans Gombrich. Encantado com Leonardo da Vinci, ao anoitecer de uma tarde amazônica. Absorto. Os olhos em “Estudos anatômicos”, laringe e perna, de 1510. Quanta perfeição! Pura arte e anatomia nunca vistas. A última ceia. Mona Lisa. Os olhos deslizam das páginas. À esquerda. Clarões, nuvens, luzes. Sinalizadores do pássaro de aço que da Vinci idealizara. Os olhos voltam-se para as páginas. Mona Lisa. Uma força me impele a erguer os olhos. Duas mãos estendidas por sobre a poltrona 10A chegam a me assustar. O sinal da presença humana tirou-me dos momentos de transe total nos quais vivia cada detalhe de Gombrich sobre da Vinci. A respiração oscilou o ritmo. Um rosto de menina surge entre aquelas mãos, na altura dos cotovelos, lança-me um sorriso terno, infantil e diz; “Tio, porque o senhor deixa aquilo aberto?” e dirige o braço direito para a janela da poltrona 11A na qual eu estava sentado. “É para olhar a nuvens e curtir essa sensação de liberdade”. Sorri. Ela sorriu. “Tomei um susto com as suas mãos”. Ela abriu ainda mais o sorriso. CONTINUA!

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Significantes


Insisto
Brinco com as palavras
Incito
Crio significados
Longe dos teus significantes.
Desperto sonhos, fantasias
Faço poemas, chamam poesias
Neles te desenho
Em cada palavra
Ou na junção delas.
Lado a lado: soltas
Giram pelo mundo
A despertar sonhos
Ao virar poemas.

terça-feira, 6 de novembro de 2012

Cumplicidade


Jogo palavras de um lado para o outro
De uma página em branco
Ponho um ponto e uma vírgula
Uso o nada nos cantos.
Letras para lá e para cá
Bailam na tua frente
Provocam uma revolução
No íntimo da tua mente.
Sou transformado em gênio
Quando nada tenho a dizer
Ao leres o que escrevo
O gênio da criação e você.
Que toma cada besteira que digo
Soma ao nada e a tudo dá sentido
Nesse jogo da leitura
Meu eu se completa contigo.

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Isolamento


Vivo isolado do mundo
Sem documento nem lenço
Não tenho com que dividir as angústias
Resta-me zanzar pela Augusta.
Passo à pé pela Paulista
Em direção ao Paraíso
Desemboca na Sena Madureira
Nem sei mais onde vivo.
Volto rumo à Rebouças
Desço a Consolação
No Hospital das Clínicas
Desfaço minha compulsão.
Chego à marginal sou visto como se o fosse
E é nesse foco moral que me isolo mais
Sou visto como bicho jogado no lixo
Espécie nociva entre os animais.

domingo, 4 de novembro de 2012

Fogo


Tem fogo esse gosto de desejo
Aperta o peito, rasga o coração
Amolece o corpo, deixa-me roto
Morto de vontade, apego e tesão.
Vaza pelos poros, afeta os pelos
Tira-me do sério o gosto de vê-la
Quero-te estrela em constelação
Aos teus pés curvar-me em oração.
O sangue acelera quando te espera
Ferve em plena veia, esquenta a pele
Turbilhão de raios, quase temporal
Vidas dissipadas nesse vendaval.

sábado, 3 de novembro de 2012

Fissuras


Tenho marcas do peito
Que não apagam assim.
Nem mesmo um amor-perfeito
É capaz de mudar isso em mim.
É como se cada furo da pele
Fosse um rombo no coração
Ou uma fissura na mente
Riscos de um ser ausente.
Pouco te tenho, muito te quero
Às vezes penso que te venero
E essa veneração
Motiva minha solidão.
Despedaça o meu espírito
Deixa sem tempero o meu viver
Será que um dia apago essas mágoas
E curto os sabores de ficar com você?


sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Fêmea


Tive a felicidade
De encontrar um poema
Em forma de fêmea.
Onça em forma de deusa
Deusa em forma de onça
Felino jeito de me deixar sem jeito.
Deixei-me engravidar
Pelo tom do teu falar
Como quem desperta de um sonho.
Em minutos, menos de quarenta
Minha voz cruzou com a tua
Fugi para o meio da rua
Comecei a banhar-me na chuva.
Puro sonho de ao teu lado estar
Sentir os cristais daquela garoa
A tocar nossa pele, em série, a dois.
E esquecermos o hoje, o antes e o depois.

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Lixo


O lixo do mundo em dejetos
Não são apenas os objetos
Jogados nas ruas
Largados no tempo.
Há seres mais abjetos
Que os imundos objetos
Cuja leveza moral
Os torna amoral e imoral.
É no lixo que se descobre
O que luxam os dito nobres
Que escondem no nojo ao lixo
A pobreza dos vossos espíritos.