Tempestade de ideias

Lia Ernst Hans Gombrich. Encantado com Leonardo da Vinci, ao anoitecer de uma tarde amazônica. Absorto. Os olhos em “Estudos anatômicos”, laringe e perna, de 1510. Quanta perfeição! Pura arte e anatomia nunca vistas. A última ceia. Mona Lisa. Os olhos deslizam das páginas. À esquerda. Clarões, nuvens, luzes. Sinalizadores do pássaro de aço que da Vinci idealizara. Os olhos voltam-se para as páginas. Mona Lisa. Uma força me impele a erguer os olhos. Duas mãos estendidas por sobre a poltrona 10A chegam a me assustar. O sinal da presença humana tirou-me dos momentos de transe total nos quais vivia cada detalhe de Gombrich sobre da Vinci. A respiração oscilou o ritmo. Um rosto de menina surge entre aquelas mãos, na altura dos cotovelos, lança-me um sorriso terno, infantil e diz; “Tio, porque o senhor deixa aquilo aberto?” e dirige o braço direito para a janela da poltrona 11A na qual eu estava sentado. “É para olhar a nuvens e curtir essa sensação de liberdade”. Sorri. Ela sorriu. “Tomei um susto com as suas mãos”. Ela abriu ainda mais o sorriso. CONTINUA!

sábado, 24 de maio de 2025

Carne

Minha carne/

É protocolo.

Minha pele?

Formulário.

Minhas lágrimas”

Dados estatísticos

que jamais serão analisados.


Sigo.

Porque parar é crime.

Sonhar é infração.

E discordar?

Toxidade

Neste mantra da carne

Putefrata:

Em sociedade.



Poema do dia 20/05/2025


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Opressão

Não são só boletins

De serviço.

São comunicados

De opressão.

Cada memorando,

entre linhas, 

São pequenas violências.


Só queria trabalhar,

Escapar das violências

Das virulências…

Ser mais feliz,

Sorrir, brincar

Piadas lá e cá.

Sou mero sobrevivente

De odiosas vertentes

De quem se diz libertador

Mas, não passa de opressor

(Ou de opressora)

Professora em opressão:

Sempre a nos dar “uma lição"


Poema do dia 19/05/2025


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Linhas do sistema

O domingo me ensina

a fingir que o amanhã

Não existe, nem é segunda,

Mas existe.

E me espera 

De punho cerrado.

Respiro raso,

a sorrir falso,

E caminhar invisível

pelas linhas do sistema.


Poema do dia 18/05/2025


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Folga

No calendário

É sábado,

A mente?

Nunca saiu do escritório.

Revivo ordens, cobranças,

Sou mastigador de vidro.


A folga não é folga:

Adia o próximo abismo.

Descanso virou metáfora —

De o quê cobram

E você não folga.


Poema do dia 17/05/2025


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Despedaçada

Ninguém percebe,

Estou quebrando.

A cada palavra seca,

a cada olhar que julga,

sou menos pessoa,

mais engrenagem.


Despedaçada

Pela força fulcral

Da burocracia original

Relatórios não captam

as rachaduras da pele,

Da alma.

Subtraída pela humilhação:

Um olhar, o mínimo de visão

É o que preciso agora

Para juntar os cacos,

Os pedaços:

Desta alma despedaçada.


Poema do dia 16/05/2025


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Dor expediente

Trabalhadores:

Colecionadores de prazos,

de metas, de fardos.

De lágrimas não vistas,

Em função de atrasos.

De silêncios obrigatórios,

Até nos refeitórios.

Ser gente é impossível

Neste ambiente indizível

Da perfeição profissional

Que, também, deve ser pessoal.


À mesa,

Além do computador,

um copo d’água,

um nó na garganta.

Tudo muito bem organizado:

Para ser sempre:

muito bem ocultado.


Poema do dia 15/05/2025


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Dor expediente

Empilhamos papéis

E vontades sufocadas.

O e-mail não respondido:

é grito de dor calada.


Costas moldadas pela cadeira,

O medo me curva a alma.

O expediente é dor —

A dor é do expediente:

e não acaba às seis.

Ou, às 18h, talvez.


Poema do dia 14/05/2025


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