Tempestade de ideias

Lia Ernst Hans Gombrich. Encantado com Leonardo da Vinci, ao anoitecer de uma tarde amazônica. Absorto. Os olhos em “Estudos anatômicos”, laringe e perna, de 1510. Quanta perfeição! Pura arte e anatomia nunca vistas. A última ceia. Mona Lisa. Os olhos deslizam das páginas. À esquerda. Clarões, nuvens, luzes. Sinalizadores do pássaro de aço que da Vinci idealizara. Os olhos voltam-se para as páginas. Mona Lisa. Uma força me impele a erguer os olhos. Duas mãos estendidas por sobre a poltrona 10A chegam a me assustar. O sinal da presença humana tirou-me dos momentos de transe total nos quais vivia cada detalhe de Gombrich sobre da Vinci. A respiração oscilou o ritmo. Um rosto de menina surge entre aquelas mãos, na altura dos cotovelos, lança-me um sorriso terno, infantil e diz; “Tio, porque o senhor deixa aquilo aberto?” e dirige o braço direito para a janela da poltrona 11A na qual eu estava sentado. “É para olhar a nuvens e curtir essa sensação de liberdade”. Sorri. Ela sorriu. “Tomei um susto com as suas mãos”. Ela abriu ainda mais o sorriso. CONTINUA!

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Penumbra


Convoco as estrelas para uma assembléia
Vejo pouco brilho em cada uma delas.
Perderam a luz, o élan, o fulgor,
Ou deslocam-se assazes por falta de amor?
Não rasgam o horizonte, apenas piscam
Cintilam aos poucos, não querem brilhar
Apelo aos deuses, mas eles pouco fazem
Poder sobre elas não hão de usar.
Se há algo de grave na greve de estrelas
É o jovem poeta vivê-las sem tê-las
Só há trevas, terror, heresia
Quando o escuro encobre a poesia.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Mistério



Tento descobrir o que escondes por trás do sorriso
Ou na frente dessa cara de mulher
Com traços de menina assustada.
Devoto todos os dias da minha vida
A essa insana perseguição.
Avanço, recuo e nada descubro.
Apenas encubro
A posse, o desejo, a dominação.
Obcecado, cego
Impotente, demente
Ajoelho-me aos teus pés.
Lágrimas copiosamente descem do rosto
Alcançam meu corpo roto: deformado pela loucura.


terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Lapidar


Vejo-te nas pedras, contornos brutos
De pedra-sabão, argila, barro enrugado
Marcas de um tempo a tecer tua imagem
Sombras de traços a invadir minha iris.
Teus olhos, duas tochas de fogo
Cintilam na mente, formatam-se em lembranças.
Pedras, um olhar distante.
Tua silhueta recorta o mar, as cachoeiras
De Figueiredo ao Rio de Janeiro.
Desço do fio, empunho a navalha
Assumo a paixão, rasgo o preconceito
De suspiro em suspiro, em cortes profundos
No coração, que era pedra
Bruta
Brotam detalhes: tua escultura.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Tempo-nada


Tento não lembrar do que já foi
Pois o que já foi não é o que já era.
Na linha do tempo o ontem morreu.
E o amanhã, quem sabe se viverá?
O hoje, as horas, os minutos
Já são passado em segundos.
O que é o futuro se não o ontem transformado em hoje
De um amanhã que chegou mais cedo?

domingo, 4 de dezembro de 2011

Gotas


Sou mera gota,
Essência de nuvem.
Nem obra, nem arte
Exposta no Louvre.
Não passo de um nada
Poeira ao infinito.
Alado ser de metal
Preso em um tubo de aço.
Dedilho símbolos
Imprimo letras.
Em vôo cego
Com rota marcada
Numericamente digitada
Por quem pilota mais de 200 vidas:
Grãos de nada ao nada conduzidos.

03/12/2012. Vôo 1630. Na volta de Brasília.

Para o Poeta Thiago de Melo que me revelou ser inédita a experiência de publicar um poema a cada dia: “Merecia um Seminário na Livraria Valer e uma matéria com destaque nos jornais de Manaus”. Obrigado poeta!

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Dependência


Destruo cada conexão do teu cérebro
Em ondas fotoelétricas percorro teu sistema nervoso.
Espalho-me pela tua corrente sanguínea.
Roubo cada fio de resistência
Dos teus glóbulos brancos e vermelhos.
Fixo-me na tua mente
Deixo-te demente.
Respiração ofegante
Pele suada de desejo
Inteiramente dependente
Das minhas carícias, dos meus beijos.

Destinos


Há caminhos que não se cruzam
Como verso e prosa de mãos dadas ao redor do mundo.
Os dedos se tocam, as mãos se apertam.
Mas os caminhos são sempre paralelos.